• Ricardo Vargues - Fisioterapeuta

Lesões Musculoesqueléticas Ligadas ao Trabalho.

Atualizado: 20 de set.


Designam-se lesões musculoesqueléticas ligadas ao trabalho (LMELT) as lesões que resultam da ação de fatores de risco profissionais como a repetitividade, a sobrecarga e/ou a postura adotada durante o trabalho. Geralmente estas lesões surgem nos membros superiores e na coluna vertebral, mas podem ter outras localizações, como os joelhos ou os tornozelos, dependendo a área do corpo afetada, da atividade de risco desenvolvida pelo trabalhador (António Sousa Uva et al., 2008).

Quais são os sintomas das LMELT? Estas lesões apresentam manifestações clínicas muito variadas que, em muitos casos, não são valorizadas. Englobam, frequentemente, um grande conjunto de sinais e sintomas, desde a simples fadiga localizada, até à dor intensa, passando por situações de incómodo, parestesias, edema e dor ligeira. Os sintomas referidos com mais frequência incluem: a dor e fadiga localizadas; desconforto; parestesia (formigueiro); sensação de peso; sensação ou perda objetiva de força muscular; edema. Convém realçar que os sintomas podem variar conforme o quadro clínico existente, a sua intensidade e também localização. Algumas Lesões Músculo-Esqueléticas, tais como a síndrome do túnel cárpico, que afeta o pulso, são lesões específicas, caracterizando-se por sintomas bem definidos. Outras, porém, manifestam-se apenas por dor ou desconforto, sem que existam sinais de uma lesão clara e específica, dificultando o seu diagnóstico. Com a exposição continuada aos fatores de risco, os sintomas inicialmente intermitentes, tornam-se gradualmente persistentes prologando-se muitas vezes pela noite mantendo-se em períodos de repouso (como os fins de semana) e interferindo não só com a capacidade de trabalho, mas também com as atividades do dia a dia (Cristiana Esteves, 2013).

Alguns exemplos mais comuns de LMELT 1. Tendinite da coifa dos rotadores. É uma das mais frequentes patologias do ombro e resulta da realização de atividades que exigem a elevação mantida ou repetida dos membros superiores ao nível dos ombros, ou acima deles, ou ainda da realização de movimentos de circundação com os braços elevados.

Tendinite da coifa dos rotadores
Figura 1 - Tendinite da coifa dos rotadores.

2. Síndrome do túnel cárpico. A síndrome do túnel cárpico é uma neuropatia, isto é, uma lesão de um nervo periférico, provocada pela compressão do nervo mediano num espaço limitado, o túnel cárpico, localizado no punho. As posições de extensão excessiva do punho ou de hiperflexão são algumas das causas da síndrome do túnel cárpico.

Síndrome do Túnel Cárpico.
Figura 2 - Síndrome do Túnel Cárpico.

3. Tendinites do punho. As tendinites do punho ou as tenossinovites do punho são desencadeadas pela realização de movimentos repetitivos de flexão/extensão do punho e dedos, mesmo quando são realizados com o manuseamento de pequenas cargas, ou pela manutenção de uma carga em postura inadequada.

Tendinite do punho
Figura 3 - Tendinite do punho.

4. Epicondilite e epitrocleíte. A epicondilite lateral ou a mediana (epitrocleíte) são tendinopatias que surgem como resposta à sobrecarga do cotovelo por gestos repetitivos ou pela manipulação de cargas excessivas ou de cargas mal distribuídas.

Epicondilite
Figura 4 -Epicondilite

5. Raquialgias. As raquialgias, geralmente chamadas “dores nas costas ou das cruzes”, são das queixas mais frequentemente associadas ao trabalho. Os sintomas variam conforme a região da coluna vertebral afetada: cervical, dorsal ou lombar. As lombalgias e as cervicalgias são as queixas mais frequentes. As posturas prolongadas de pé, os movimentos frequentes de flexão e de extensão da coluna, o manuseamento e transporte de cargas, a permanência sentado em trabalho com computador são causas possíveis de raquialgias.

Raquialgias ou dores nas costas
Figura 5 - Raquialgias

Fatores de risco: Estes fatores estão classificados em três grupos:


Como combater as lesões músculo-esqueléticas? Segundo a Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho, para se fazer frente ao problema das lesões musculoesqueléticas é necessário adotar uma abordagem de gestão integrada. Esta abordagem não deve ser centrada apenas na prevenção de novas lesões musculoesqueléticas, mas também na manutenção em atividade, reabilitação e reintegração dos trabalhadores que já sofrem de lesões musculoesqueléticas. Criar um conjunto de procedimentos que reduzam o risco de lesões é indispensável. Esses procedimentos constituem o modelo de gestão do risco de LMELT, também na perspetiva ergonómica, que integra os seguintes componentes: 1. A análise do trabalho. As metodologias de análise do trabalho recorrem a processos que decompõem o trabalho nos distintos e sucessivos acontecimentos que o constituem, permitindo a observação dos detalhes, como, por exemplo, as aplicações de força, a frequência dos gestos e a postura adoptada no desempenho da atividade de trabalho. 2. A avaliação do risco de LMELT. A avaliação do risco de LMELT é uma das etapas primordiais de qualquer intervenção. Nesse processo, a utilização de métodos de avaliação do risco é a forma mais rápida e comum de classificar os postos de trabalho, em função dos níveis de risco. 3. A vigilância médica (ou da saúde) do trabalhador. A vigilância da saúde pode ser definida como o processo de obtenção, análise e interpretação de dados que permitem a caracterização do estado de saúde individual ou do grupo de indivíduos. O estabelecimento da sua relação com a exposição a fatores de risco profissionais, facultando perspetivar/programar a prevenção dos efeitos adversos do trabalho sobre o organismo humano exposto, ou pelo menos diminuir esse risco. 4. A informação e formação dos trabalhadores. O envolvimento dos trabalhadores no processo de prevenção das LMELT pressupõe a informação e formação sobre os respetivos fatores de risco e sobre a história natural das lesões, incluindo a influência de fatores não profissionais na etiologia e/ou agravamento dessas lesões. Essa formação deve ser dada não só aos trabalhadores que se encontram diretamente expostos a fatores de risco, mas também aos que se relacionam com o processo produtivo. A importância da formação em saúde e segurança dos trabalhadores é de tal forma marcada que, a sua ausência, pode mesmo constituir mais um fator de risco de LMELT a juntar aos já atrás referidos. Em conclusão, as LMELT representam não só uma doença, mas um fenómeno social, com repercussões importantes tanto na esfera social como na esfera de relações do trabalho. A prevenção é a principal medida que qualquer empresa pode adotar em relação às lesões por esforços repetitivos e consiste basicamente na correção dos fatores não ergonómicos que podem conseguir desencadear uma lesão. Um bom exemplo é o vídeo abaixo.



Ricardo Vargues | Fisioterapeuta Exemplo de ergonomia no trabalho:

Referências:

EASHW. (2007). Introdução às lesões musculoesqueléticas. Facts, 71.

EASHW. (2010). OSH in figures: Work-related musculoskeletal disorders in the EU-facts and figures. Luxembourg: Office for Official Publications of the European Communities.

Esteves, Cristiana Alexandra Gonçalves. (2013). Lesões músculo-esqueléticas relacionadas com o trabalho uma análise estatística. Mestrado em engenharia de segurança e higiene ocupacionais.

Uva, António Sousa, Carnide, Filomena, Serranheira, Florentino, Miranda, Luís Cunha, & Lopes, Maria de Fátima. (2008). Lesões Musculoesqueléticas Relacionadas com o Trabalho: Guia de orientação para a Prevenção. Programa Nacional Contra as Doenças Reumáticas, Direção-Geral da Saúde.

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