Entorse do tornozelo: sintomas, tratamento e fisioterapia
- Ricardo Vargues - Fisioterapeuta
- 13 de set. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 8 de fev.
A entorse do tornozelo é uma das lesões mais frequentes no dia a dia e no desporto — e é também das mais subestimadas. Quando não é bem tratada, aumenta o risco de instabilidade crónica, dor persistente e entorses de repetição.
Em resumo, o que fazer nas primeiras 48h:
Nas primeiras 48–72h, o objetivo é controlar dor/inchaço e voltar a apoiar o pé de forma segura (sem “forçar”).
Nem todas as entorses precisam de ressonância magnética — o médico decide e o raio-X é pedido sobretudo quando há suspeita de fratura.
A reabilitação com exercício (força + equilíbrio/proprioceção) é o que mais reduz recaídas.
Quando acontece uma entorse do tornozelo?
Uma entorse acontece quando os ligamentos são forçados para lá da sua capacidade, normalmente num mecanismo de inversão (o pé “vira para dentro”), afetando sobretudo o complexo ligamentar lateral.

Graus de entorse:
Grau I: estiramento ligeiro (dor e inchaço mais controláveis).
Grau II: rotura parcial (mais edema, hematoma e limitação).
Grau III: rotura completa (instabilidade marcada; pode exigir imobilização inicial e avaliação rigorosa).
Nota importante: na prática clínica, a gravidade não depende só do “grau”, mas também da função (quanto consegues apoiar, andar, equilibrar e recuperar a mobilidade).

Sintomas típicos (e sinais de alerta)
Os sintomas mais comuns incluem dor, inchaço/edema, possível hematoma, aumento de temperatura local e dificuldade em andar.
Procure avaliação médica urgente se houver:
Incapacidade de apoiar o pé ou dar 4 passos.
Dor óssea muito localizada (tornozelos, base do 5.º metatarso ou navicular).
Deformidade, perda de sensibilidade, dor muito desproporcional ou suspeita de fratura.

Preciso de raio-X? (e quando faz sentido a ressonância)
Muita gente ouve “entorse” e assume que precisa sempre de exames. Na verdade:
Quando o raio-X é mais indicado?
O médico pode usar regras clínicas para decidir se é necessário raio-X e reduzir exames desnecessários sem falhar fraturas clinicamente relevantes.
E a ressonância magnética?
A RM costuma ser reservada para situações específicas (ex.: suspeita de lesão mais complexa, dor/inchaço que não evolui como esperado, ou necessidade de clarificação estrutural). O mais importante é: não atrasar a reabilitação por falta de RM, quando não há sinais de alarme.
O que fazer nas primeiras 48–72 horas (fase aguda)
O objetivo inicial é proteger, reduzir sintomas e recuperar função de forma progressiva. Algumas recomendações atuais para lesões de tecidos moles dão prioridade a educação, carga progressiva e exercício — sem “parar tudo” durante semanas.
O que costuma ajudar:
Proteção + compressão + elevação (especialmente nas primeiras 48h).
Apoio progressivo com ajuda (canadianas) se necessário.
Mobilidade suave (sem dor forte) para evitar rigidez.
Gelo pode ajudar no alívio da dor em algumas pessoas (não é “obrigatório”; use se fizer sentido).
Medicamentos (analgésicos/anti-inflamatórios) apenas com orientação médica, sobretudo se houver outras condições clínicas.
Porque é que “deixar passar” é um erro?
Uma percentagem relevante de pessoas evolui para queixas persistentes (dor, sensação de tornozelo “instável” e recorrências) quando não há um plano de reabilitação bem estruturado.
Como a fisioterapia ajuda (o que faço na prática)?
As guidelines mais robustas recomendam reabilitação ativa, com progressão por critérios e foco em força, controlo neuromuscular e retorno funcional.
Objetivos por fases:
1) Dor/inchaço e marcha
Reduzir edema e melhorar tolerância ao apoio.
Recuperar padrão de marcha (andar) com segurança.
2) Mobilidade
Recuperar dorsiflexão e mobilidade do tornozelo (fundamental para subir/descer escadas e correr).
3) Força
Fortalecer todos os músculos: gémeos/solear, peroneais, tibial anterior, cadeia da anca (sim: a anca também influencia o controlo do pé).
4) Equilíbrio e proprioceção (a parte “anti-recidiva”)
Programas de proprioceção/treino neuromuscular reduzem recidivas e melhoram a função.
5) Retorno ao desporto(atletas/desportistas)
Testes funcionais (saltos, mudanças de direção, equilíbrio)
Progressão de treino e, quando indicado, taping/brace em fases iniciais do regresso para reduzir risco.
Exercícios simples (gerais) que costumo usar no início. *
*Não substituem avaliação — são exemplos comuns quando não há sinais de alarme.
Mobilidade passiva/ativa suave.
Flexão/extensão sem dor forte.
Elevação dos gémeos (progressivo, conforme tolerância)
Equilíbrio num pé (começar com apoio perto; progredir)
Regra prática: desconforto ligeiro pode ser aceitável; dor que aumenta muito ou “fica pior no dia seguinte” pede ajuste.
Tempo de recuperação: quanto costuma demorar?
Varia com o grau, a função e a consistência da reabilitação. Como referência clínica frequentemente usada:
Grau I: aproximadamente 5–14 dias.
Grau II: várias semanas (muitas vezes 3–6).
Grau III: pode demorar 8–12 semanas ou mais e exige um plano de reabilitação bem orientado.
Prevenção: como evitar nova entorse?
A melhor prevenção é a reabilitação completa:
Treino de equilíbrio/proprioceção (reduz recorrências).
Retorno ao desporto com critérios (não apenas “já não dói”).
Taping/brace em alguns casos e fases (sobretudo com historial de recidivas).
Calçado adequado e progressão de carga bem feita.
Como posso ajudar (fisioterapia ao domicílio em Lisboa)?
Se está com uma entorse do tornozelo e quer recuperar com segurança, eu ajudo-o(a) com:
Avaliação completa (dor, mobilidade, força, equilíbrio e marcha).
Plano progressivo com objetivos claros (ex.: voltar a andar sem dor, voltar a correr, voltar a praticar desporto).
➡️ Fisioterapia ao domicílio: vê como funciona aqui.
➡️ Para marcação rápida: marque já.
FAQ (Perguntas frequentes)
1) Quanto tempo demora para curar uma entorse do tornozelo?
Depende do grau e da função: pode ir de 1–2 semanas (leve) a várias semanas/meses (grave).
2) Devo pôr gelo numa entorse?
Pode ajudar a aliviar a dor em algumas pessoas, sobretudo no início. O essencial é controlar edema/dor e iniciar reabilitação progressiva.
3) Preciso sempre de fazer ressonância magnética?
Não. O médico decide consoante sinais/sintomas; muitas vezes começa-se por avaliação clínica e, quando indicado, raio-X.
4) Porque é que o tornozelo fica “fraco” depois da entorse?
Porque há perda de força, controlo neuromuscular e equilíbrio. Treino de proprioceção reduz recidivas.
5) Taping ou brace ajudam?
Em alguns casos, especialmente com historial de entorses, podem reduzir risco durante o regresso ao desporto.
Conclusão
A entorse do tornozelo é comum, mas não deve ser “deixada ao acaso”. Com reabilitação ativa, progressão bem orientada e foco em equilíbrio/força, a recuperação tende a ser mais rápida e com menos recaídas.
Quer começar já com um plano claro? Marque a sua avaliação.
Ricardo Vargues | Fisioterapeuta
Veja o vídeo sobre a entorse do tornozelo:
Referências:
Clinical Practice Guideline: Lateral Ankle Sprains – Revision 2021 (JOSPT/Orthopaedic Section).
Ottawa Ankle Rules (redução de RX desnecessários, elevada sensibilidade).
Dubois B, Esculier JF. PEACE & LOVE (continuidade de cuidados em tecidos moles).
Hupperets MDW et al. Proprioceptive training reduces recurrences (BMJ).
Dizon JMR et al. External ankle supports reduce sprains (JSAMS).
Ferran NA, Maffulli N. Lateral ankle sprains account for ~85% (PubMed).



Comentários